"As Ilhas Canarias e a Questao do Meridiano de Referencia: A Busca do Rigor na Medicao da Terra" by Wilcomb E. Washburn in <> (Vol. 1, pp. 213-220) O meridiano de referencia (primus meridianus) e uma linha arbitraria, a partir da qual cartografos e desenhadores de mapas podem comecar a medir e a calcular a distancia longitudinal a superficie do globo. O sistema para determinar a localizacao terrestre pela medicao de latitude e da longitude remonta aos matematicos e geografos gregos, Eratostenes e Hiparco, e tomou pela primeira vez a forma com que chegou ate aos nossos dias na <> de Ptolomeu. Apesar de desenvolver em Alexandria o seu trabalho astronomico, Ptolomeu escolheu as Ilhas Afortunadas (as Canarias) como localizacao de cidades individuais, desde a mais longinqua terra conhecida a ocidente ate a mais longinqua terra conhecida a oriente, pudesse ser estabelecida com exactidao. Infelizmente (ou melhor, felizmente, no que diz respeito a Colombo), Ptolomeu exagerou a extensao da `sia para Oriente, de modo que, mesmo colocando as Canarias cerca de sete graus afastadas para leste, reduziu a distancia que um marinheiro teria de navegar entre a Europa ocidental e a `sia oriental, aquilo que Colombo considerou uma distancia possivel de vencer.(1) A distancia entre esses pontos--a extensao do mundo desconhecido--era uma questao de importancia decisiva para Colombo. Por consequinte nao surpreende que tenha largado das Cararias nas suas viagens pelo desconhecido. (Nao se ignora a importancia dos regimes de ventos predominantes, nem o possivel interesse romantico de Colombo por Dona Beatriz de Peraza y Bobadilla como razoes adicionais para comecar as suas quatro viagens nas Canarias.) A necessidade de rigor na determinacao da longitude das terras do Mar Oceano, a ocidente da Europa, tinha sido acentuada pela bula do Papa Alexandre VI, em 1493, estabelecendo uma linha de demarcacao entre as descobertas portuguesas e espanholas autorizadas, 100 leguas a oeste dos Acores e das ilhas de Cabo Verde. Apos protestos da parte de Portugal, esta linha foi desviada, em conformidade com o estipulado pelo Tratado de Tordesilhas entre a Espanha e Portugal, para um meridiano 370* a oeste das ilhas de Cabo Verde.(2) A controversia sobre o lugar onde a linha devia cair--em ambos os hemisferios--ensombrou as relacoes entre as duas potencias por mais de um seculo. Quando Colombo passou o ponto de declinacao magnetica zero na bussola, lancou os cartografos na va procura de um meridiano zero isogonico estavel (ou linha mostrando variacao magnetica nula). Muitos cartografos do seculo dezasseis comecaram a fazer passar o meridiano de referencia atraves dos Acores de preferencia as ilhas Canarias. Em meados do seculo, Mercator abandonou o meridiano de referencia ptolomaico em favor de um meridiano baseado no ponto em que a bussola nao mostrasse variacao. Esta linha nao estava definida com seguranca. No mapa da Europa de Mercator, de 1554, o meridiano de referencia ainda esta localizado perto de Ferro, o extremo ocidental das ilhas Canarias, mas muitos desenhadores de mapas fizeram passar o novo meridiano principal pelos Acores, como fez Hondius, no seu globo terrestre de 1601, <>, como anotou numa inscricao no globo. Mas cada vez mais era notorio que a linha da variacao magnetica zero nao correspondia a um verdadeiro meridiano. A busca da precisao conduzia uma vez mais as Canarias. Johan Blaeu, no seu globo de 1622, anotou numa inscricao que a busca de um meridiano por meio da agulha da bussola era <> provada pelo facto de <>. Por conseguinte, <>. De acordo com o investigador ingles W.G. Perrin, <>(3) Em <> de Blaeu (Amesterdao 1663, edicao facsimilada em 12 volumes, Theatrum Orbnis Terrarum, Amesterdao, 1967), o autor no capitulo VIII discute a incerteza e a falta de acordo sobre a localizacao do meridiano de referencia, alguns seguindo Ptolomeu, outros a linha de declinacao magnetica zero na bussola. Aqui Blaeu reforca o seu ponto de vista com a autoridade do matematico de Bruges, Simon Stevin. d necessario, afirma Blaeu, seleccionar um local <>. E dado que um tal lugar existe numa das Canarias, deve ser escolhido. A escolha (citando Simon Stevin) concluiu, deve ser Pico de Teide. Descreve a montanha erguendo-se abruptamente de uma larga base para um ponto agucado como um pao de acucar. Assim temos, em Tenerife, escreve, <>.(4) As maravilhas de El Pico foram frequentemente cantadas na literatura do tempo. R. Stafforde, em <>, Londres, 1634, escreveu sobre <>.(5) Durante seculos a historia da arvore milagrosa de Tenerife era de referencia obrigatoria nas descricoes das Canarias. Os autores de <>, Londres, 1695, descrevem El Pico como <>, nem em qualquer outra das ilhas Canarias>>.(6) A mais prestigiosa confirmacao da legitimidade das ilhas Canarias como o lugar do primeiro meridiano foi o decreto de Luis XIII, publicado a 1 de Julho de 1634, declarando, depois de constituido um juri de cientistas que recomendasse a localizacao apropriada de um meridiano de referencia, que este devia passar pelas Canarias, e em particular pela <> (Hierro ou Fero). O decreto citava nao so a autoridade de Ptolomeu, mas tambem a de Andres Garcia de Cespedes, cujo <>, Madrid, 1601, capitulo 52, fala de <>. Luis XIII ordenou que os navios franceses nao atacassem navios espanhois ou portugueses nas aguas que ficassem a leste do meridiano de referencia e a norte do Tropico de Cancer, e, para que nao restassem duvidas sobre as areas geograficas envolvidas, proibiu <>.(7) Compreende-se que ao longo da historia do mundo moderno se fizesse passar o primeiro meridiano pelas Canarias, como Jean- Joseph La Montre escreveu em 1702, uma vez que as Canarias constituem a divisao natural entre o velho mundo e o novo. Olhem para um mapa mundo, observava La Montre, e vejam que se trata da disposicao mais natural e mais favoravel que e possivel escolher para um primeiro meridiano. La Montre referiu que o cardeal Richelieu nao sentiu que fosse necessario aos interesses do rei ou do Estado, exigir que um meridiano de referencia baseado em observacoes astronomicas passasse por Paris. Tal como Ptolomeu tinha feito as suas observacoes astronomicas em Alexandria enquanto escolhia as Canarias como o lugar geografico deste meridiano, assim Richelieu consideroulogica a distnicao entre as utilizacoes astronomicas e geograficas de um primeiro meridiano.(8) A distincao entre um <> (no qual os observatorios foram estabelecidos) e um <> ou meridiano de calculo de derrota, marcando o zero de longitude, foi mais tarde salientada nas conferencias do seculo dezanove sobre a questao do meridiano, por exemplo, pelo Coronel Wauvermans em Antuerpia em 1882 e por Thury em Genebra em 1883. Em contrapartida, Perrin e mais cinico sobre as notivacoes de Richelieu, recusando a pretensao de <> cientifico e atribuindo a escolha das Canarias a necessidade pratica de fixar uma niida linha de demarcacao para as hostilidades que decorriam no mar com a Espanha, contra quem tinha sido declarada guerra aberta no precedente mes de Maio. <>, nas palavras de Perrin, <>. Tratava-se meramente de outro caso de <>.(9) Com a criacao da Real Academia das Ciencias em 1666, a Franca comecou um programa de investigacao em astronomia, geodesia e cartografia. Estudiosos de outros paises, como o italiano Cassini, foram levados para Franca. Um programa de cartografia dos dominios reais foi empreendido em 1680 por ordem de Luis XIV, por dois membros da Academia das Ciencias, Jean Picard e de la Hire. O seu trabalho baseou-se nas observacoes feitas no Observatorio de Paris fundado em 1667. O relatorio de 1682 afirmava: <>(10) Apesar de a Royal Society of London for Improving Natural Knowledge--a equivalente britanica da Academie des Sciences francesa--ter sido fundada (em 1662) por Carlos II quatro anos antes da Academia francesa, so quando o interesse frances em <> se comunicou ao rei Carlos atraves da sua amante francesa, Louise de Keroualle (1649-1734), e que os ingleses deram os passos decisivos que levaram a criacao do Observatorio de Greenwich, conduzindo a sua designacao definitiva como o local do meridiano de referencia mundial. Derek Howse conta esta historia no seu <>, New York, Oxford University Press, 1980. Louise, tornada duquesa de Portsmouth depois da sua naturalizacao em 1673, nao promoveu pessoalmente a pesquisa mas actuou como patrona de Le Sieur de St. Pierre, um frances na corte inglesa que pretendia ter um metodo para a descoberta da longitude. Importunando constantemente a duquesa, conseguiu uma oportunidade para apresentar o seu plano a um destacado grupo de cientistas ingleses em 1675. Entretanto o rei era circunstanciadamente informado acerca dos esforcos franceses para medir a Franca e determinar a longitude, e assinou uma ordem real em 4 de Marco de 1675, nomeando John Flamsteed seu <>, encarregando-o de descobrir a longitude e autorizando a criacao do Observatorio de Greenwich. Flamsteed demoliu entao a teoria de St. Pierre e iniciou a caminhada inglesa para a superioridade cientifica na navegacao.(11) Entretanto os franceses desenvolviam esforcos para medir a diferenca em longitude entre o Observatorio de Paris e Ferro. A incerteza pareceu ser resolvida pelo geografo Guillaume Delisle (1675-1726) em 1700 num artigo no <> e, ainda, em 1722, num relatorio intitulado <>. Neste seu ultimo trabalho, Delisle justificava <> como a longitude de Ferro apesar de outros a terem calculado alguns minutos ao lado.(12) O numero de Delisle foi geralmente adoptado, embora em 1724 uma missao geodesica enviada a ilha de Ferro sob a direccao do padre Louis Feuillee, de Marselha, tenha obtido o resultado de 19*55'3" a oeste de Paris.(13) Apesar de corrigido por uma posterior expedicao, em 1789, que colocou a ilha de Ferro definitivamente a 20*31' de Paris, fazendo com que o meridiano de referencia de Delisle caisse entre as ilhas de Gomera e Palma, o comodo calculo de Delisle teve tendencia para continuar a ser utilizado. Mas, a medida que mais observatorios nacionais iam sendo criados, novos meridianos de referencia, baseados em diferentes capitais do mundo, comecaram a ser usados. O meridiano de Delisle, em Ferro, foi posto em causa. Como observou M. Jannsen, delegado frances a Washington Conference for Fixing a Prime Meridian and a Universal Day, que teve lugar em Outubro de 1884, a linha de 20* de Delisle <>.(14) Nas cartas inglesas do inicio do seculo XVIII o meridiano zero e habitualmente Lizard, ou Londres, ou por vezes Ferro. Em meados do seculo XVIII Greenwich comeca a ser utilizado nas cartas inglesas. Com a publicacao em 1767 no British Nautical Almanac das tabuas baseadas no Observatorio de Greenwich, cada vez mais nacoes, incluindo os Estados Unidos, comecaram a utilizar Greenwich como meridiano de origem.(15) A confusao e incerteza que causava a existencia de numerosos e conflituosos meridianos de referencia nas cartas do mundo, levou no seculo XIX, a uma tentativa de chegar a um acordo internacional em torno de um primeiro meridiano <>, que nao se identificasse com nenhum pais em particular. A proposta de H. Buthillier de Beaumont, presidente da Societe de Geographie de Geneve, no seu <>, Genebra, 1880, de um primeiro meridiano dividindo a America do Norte da `sia no estreito de Bering e passando pela ampla bacia do Pacifico, encontrou o apoio crescente daqueles, particularmente franceses, que se apercebiam de uma preferencia irresistivel da parte de outros para seleccionar Greenwich de entre os meridianos nacionais existentes. Por outro primeiro meridiano baseado na grande piramide de Gizeh. O professor Smyth, na sua contribuicao, para o relatorio do Committee on Standard Time and Prime Meridian, International Institute for Preserving and Perfecting Weights and Measures, publicado com o titulo <>, Cleveland, Ohio, Junho de 1884, observou que <>. Smyth observou que a Grande Piramide <>. Smyth tambem observou a sua proximidade de Jerusalem, junto a qual devia ficar um primeiro meridiano para todo o mundo. Evocando a ressurreicao de Cristo, o professor Smyth perguntava <>.(16) Em 1856 Smyth comandou uma expedicao as Canarias, especificamente a Tenerife, <>. Smyth era subsidiado por uma concessao de 500 libras da parte do Almirantado. Durante sessenta e cinco dias em Tenerife, Smyth montou duas estacoes de observacao a grande altitude, uma no topo do Guajara e a outra em Alta Vista. Em aditamento ao seu relatorio formal sobre a expedicao escreveu um livro que se tornou popular chamado <>, Londres, L. Reeve, 1858, no qual conclui <>(17) Cem anos mais tarde, em 1959, foi estabelecido em Tenerife um observatorio permanente. O ministerio espanhol da Educacao fundou o Observatorio del Teide em Izana, de onde sao visiveis as ruinas do observatorio de Smyth. Em 1973 o Observatorio del Teide associou-se a Universidade de La Laguna como Instituto Universitario de Astrofisica. Em 1975 tornou-se o Instituto de Astrofisica das Canarias. As Canarias tornaram-se um local de crescente interesse por parte dos astronomos.(18) Foram muitos os descendentes de Adao que nao concordaram que o meridiano de referencia ficasse perto de Jerusalem ou passasse por Tenerife. O professor Janssen, director do Observatorio de Fisica de Paris, falando em 1884 na conferencia de Washington <>, como disse um dos delegados espanhois, Juan Pastorin y Vacher, insistiu em que todas as tentativas de resolucao que assentassem em bases exclusivamente geograficas (para nao falar de based nacionais) fossem postas de parte, e que a questao fosse decidida em terreno neutro, astronomico e cientifico. Janssen negou a necessidade de <>. Admitia contudo que, <>, podia ser estabelecido em conformidade com um meridiano neutro, determinado nas suas relacoes com outros pontos pelas medicoes dos varios observatorios nacionais.(19) Nao logrou Janssen impedir o crescente consenso em torno da escolha de Greenwich como primeiro meridiano terrestre. A conferencia de Washington, com a abstencao da Franca e do Brasil, votou que se declarasse Greenwich como o local do primeiro meridiano. Simultaneamente, determinou ainda que a longitude fosse calculada em duas direccoes ate 180*, sendo a longitude leste de sinal mais e a longitude oeste de sinal menos, decisao que alterou a recomendacao da conferencia de Roma para que a longitude fosse calculada numa direccao, de oeste para leste. A conferencia proposainda a adopcao de um dia universal <>. O dia universal a meia noite do meridiano de origem, coincidindo com o comeco do dia e data civis daquele meridiano, e devendo ser calculado de zero ate vinte e quatro horas>>.(20) Endnotes 1. Wilcomb E. Washburn, <>, <>, XXI, n. 3, Agosto de 1952, 221-36; Emerson D. Fite e Archibald Freeman (comp. e ed.), <>, Cambridge, Harvard University Press, 1926 (reed. New York, Arno Press, 1969, pp. 1-2). 2. Derek Howse, <>, Oxford, Oxford University Press, 1980, p. 127; Lucie Lagarde, <>, <>, 32, Paris, 1979, 289-304, na 291. 3. W.G. Perrin, <>, <>, 13, Londres, 1927, 109-24, nas pp. 116-118. 4. Johan Blaeu, <>, Amesterdao, 1663, ed. facsimilada em 12 vols., Amesterdao, Theatrum Orbis Terrarum, 1967, cap. VIII; Simon Stevin, <> par Albert Girard, Leyden, 1634, p. 105. 5. R. Stafforde, <>, Londres, 1634, pp. 36-37. 6. <>, Londres, 1695, cap. III, p. 9. 7. Lagarde, <>, p. 293; Perrin, <>, p. 119; Andres Garcia de Cespedes, <>, Madrid, 1601, cap. 52. 8. Lagarde, <>, p. 297. 9. Perrin, <>, p. 119; as conferencias em que a questao foi inicialmente discutida estao registadas em <>, Roma, Imprimerie Royale, 1883, pp. 1-29; Bouthillier de Beaumont, <>, Nancy, Imprimerie Berger-Levrault et Cie, 1880, pp. 1-19. 10. Perrin, <>, p. 120. 11. Howse, <>, pp. 19-30. 12. Lagarde, <>, pp. 296-298. 13. Ibid., p. 298; Alfredo Herrera Pique, <>, in Francisco Morales Padron (ed.), <>, 2 vols., Gran Canaria, 1982, II, pp. 741-61. 14. Forty-eighth Congress, 2nd Session, House of Representatives Ex. Doc. no. 14, <>, Washington, 1884, pp. 1-117, na p. 34. 15. Howse, <>, pp. 129-131. 16. <>, Cleveland, Ohio, Junho de 1884, pp. 1-56, nas pp. 11-13. 17. Citado em Anthony W. Jones, <>, <> 62, no. 3, Cambridge, Mass., Setembro de 1981, 199-201. 18. Ibid. 19. Juan Pastorin y Vacher, <>, Madrid, Imprenta de Fortanet, 1885, p. 28; <>, p. 30. 20. Howse, <>, pp. 38-151. [Este texto foi originalmente escrito para o V Coloquio de Historia Canario-Americana, Las Palmas de Gran Canaria, 4 a 12 de Outubro de 1982, e aparecera tambem nas actas desta conferencia.] Reprint permission granted by author.